terça-feira, 26 de junho de 2012

JAMES AGGREY E A ÁGUIA

Esta história ocorreu em meados de 1925 em Gana – Golfo da Guiné –

 África ocidental. O responsável por ela, James Aggrey era político e educador.
A história de Gana alcança o seu apogeu entre os anos 700 e 1200 da nossa época. Era uma região muito rica em ouro e pedras preciosas. Havia tanto ouro que até os cães usavam coleira feita com esse precioso metal. Por esse motivo, Gana foi chamada de Costa do Ouro.
No século XVI, Gana era uma colônia portuguesa.
Outro registro importante é que, no século XVII, escravos foram trazidos de Gana para a Bahia pelos portugueses.
Como pretexto de combater a exportação de escravos para as Américas, a Inglaterra apoderou-se desta colônia portuguesa e Gana passou a ser uma colônia inglesa.
A população ganense sempre alimentou forte consciência da ancestralidade da sua história e James Aggrey - precursor do nacionalismo africano – sempre fortaleceu esse sentimento.
Pensava ele: “Precisamos, antes de tudo, libertar a consciência do povo”.
Os ingleses, para ocultar a violência da sua conquista, desmoralizavam os conquistados. Diziam: “Os habitantes da África são seres inferiores, incultos e bárbaros (estas afirmações podem ser confirmadas vendo os filmes feitos)”. Difamavam os africanos em livros, nas escolas, nos púlpitos das igrejas e em todos os atos oficiais.
Falavam tanto que até muitos dos colonizados acabaram hospedando dentro de si, esses preconceitos. Acreditavam que, de fato, nada valiam.
Processo semelhante ocorreu, no século XVI, com os índios das Américas.
James Aggrey incentivava em seus compatriotas esta verdade: “a liberdade de um povo começa na consciência de cada um e no resgate da própria dignidade”.
Em meados de 1925 James Aggrey participava de uma reunião de líderes populares na qual se discutiam os caminhos da libertação do domínio colonial inglês.
 As opiniões se dividiam. Uns queriam o caminho armado, outros o caminho da organização política e alguns se conformavam com a colonização e se deixavam seduzir pela retórica dos ingleses.
James Aggrey, como fino educador, acompanhava atentamente cada intervenção.
Num dado momento, porém, viu que líderes importantes apoiavam a causa inglesa – renunciavam aos sonhos da libertação.
Pediu a palavra e, com a calma de um sábio, contou a seguinte história:
 “Um jovem vivia com os pais, que eram camponeses, e certo dia saiu para a floresta para apanhar um pássaro e criá-lo em cativeiro. Durante a caminhada encontrou um filhote de águia que havia caído de um ninho. Pegou o filhote e levou-o para casa. Criou-o no galinheiro, junto às galinhas. Ele comia o que as galinhas comiam, embora fosse a rainha das aves”.
“Cinco anos depois ele recebe a visita de um amigo que era naturalista”. “Durante um passeio, o amigo viu a águia no galinheiro e disse”:
_ “Esse ave aí não é uma galinha. É uma águia”.
_ “De fato, é uma águia, mas eu a criei como uma galinha. Ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas com três metros de extensão”.
_ “Não, retrucou o naturalista, ela é e sempre será uma águia. O seu coração de águia a fará, um dia, voar às alturas”.
_ “Não... não, insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia”.
Então decidiram fazer uma prova.
O naturalista tomou a águia, ergueu-a, bem alto e desafiando-a disse:
_ “Já que você, de fato, é uma águia, já que você pertence ao céu e não a terra... então, abra as suas asas e voe”!
A águia pousada sobre o braço estendido do naturalista olhava, distraidamente, ao redor. Viu as galinhas embaixo ciscando os grãos e pulou para junto delas.
O camponês comentou:
_ “Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha”.
_ “Não, tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. Vamos experimentar novamente, amanhã”.
No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no telhado da casa e sussurrou-lhe:
_ “Águia, já que você é uma águia abra as suas asas e voe”.
Mas, quando a águia viu, lá embaixo, as galinhas ciscando no chão pulou indo para junto delas.
O camponês sorriu e voltou à carga:
_ “Eu lhe havia dito, ela virou galinha”!
_ “Não, respondeu, firmemente, o naturalista. Ela é águia e possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar uma última vez. Amanhã a farei voar”.
No dia seguinte o camponês e o naturalista levantaram bem cedo, pegaram a águia e a levaram para longe das casas, no alto de uma montanha onde o sol nascente brilhava.
O naturalista ergueu a águia e ordenou-lhe:
_ “Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não a terra abra as suas asas e voe”!
A águia olhou ao redor. Ela tremia como se experimentasse uma nova vida, mas não voou.
Então, o naturalista segurou-a firmemente bem na direção do sol para que seus olhos pudessem se encher de claridade e da vastidão do horizonte.
Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kan kan das águias e erguendo-se, soberana, sobre si mesma começou a voar para o alto... Voar cada vez mais para o alto.
Voou... Voou... Até confundir-se com o azul do firmamento.
E, James Aggrey terminou dizendo:
_ “Meus compatriotas, nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus, mas houve pessoas que nos fizeram pensar como galinhas. E, muitos, de nós, ainda acham que somos, efetivamente, galinhas. Nós somos águias. Por isso, abramos as asas e voemos como as águias. Jamais devemos nos contentar com os grãos que nos jogam aos pés, para ciscar”.


Momento de reflexão
                                        Darbí José
“Este fato ocorrido em Gana, afirma Leonardo Boff, ocorre ainda hoje com os países que não foram inseridos no novo sistema mundial de produção e consumo, como a maioria das nações da América Latina, da África e da Ásia”. “Elas são consideradas um zero econômico e sua população é vista como massas humanas descartáveis e entregues à própria fome, à miséria e à margem da história”.
Infelizmente, a mesma discriminação acontece com: pobres, mulheres, deficientes, homossexuais, portadores do vírus HIV e outros.
Todos, vítimas do preconceito e da exclusão por parte daqueles que pretendem ser os únicos portadores da humanidade, da cultura, saúde, saber e da verdade religiosa.
Toda colonização – antiga ou moderna – é um ato de grande violência.
Os colonizados de ontem e de hoje são obrigados a assumir formas políticas, hábitos culturais, estilos de comunicação, gêneros de música e modos de produção e consumo dos colonizadores.
Em síntese: os colonizados são impedidos de fazer as suas escolhas, de tomar as decisões que constroem a sua própria história.
Pela libertação, os oprimidos conseguem resgatar a autoestima. “A libertação começa na sua consciência e no resgate da sua própria dignidade”.
Lembre-se: nós somos águias e não devemos viver como galinhas, satisfazendo-nos com o milho que nos oferecem.
Voe...
                                     ( do livro: A Águia e a Galinha de Leonardo Boff )

sábado, 2 de junho de 2012

COMO ENTENDO A ESCOLA

                                                           Darbí José Alexandre     
 (do livro: Educar... Um ato de amor).
            Costumava dizer aos meus colegas de trabalho que a escola se assemelha a um corpo, onde o diretor e seus assessores são “a cabeça”; a secretaria e seus funcionários representam “o coração”; os docentes e os outros funcionários são “os braços” e “as pernas”, pois são eles que dão os movimentos. E os alunos, o que representam?
            Neste corpo tão importante que é a Escola, para mim, os alunos são “a sua alma”. E sabemos que um corpo sem alma é um corpo inerte... Morto.
            Todas as partes de um corpo são importantes, porém a alma deve ser cuidada com o maior esmero para que tenha uma vida eterna.
            Assim, devemos cuidar bem dos nossos alunos e muito melhor daqueles que têm mais “problemas”. Os alunos que se desenvolvem quase que naturalmente precisam apenar ser acompanhados em suas atividades diárias. Porém, aqueles que apresentam uma maior dificuldade em seu desenvolvimento devem receber maior atenção por parte de todos: pais, professores, sociedade...
            Em certo período de minha vida profissional fui dirigir uma escola em São Paulo. Era grande ( com mais de 1200 alunos e contava com 158 funcionários ) e funcionava em três períodos: manhã, tarde e noite.
            Observando os alunos percebi que eles entravam e saíam pela porta menos importante – um dos portões de “entrada de serviço”. Como se pode permitir que a parte mais importante desse corpo, que chamamos escola, entre no edifício pela porta menos importante?
            Sei que não é muito fácil convencer as pessoas sobre esse ângulo de visão que tenho da escola e, assim foi com meus companheiros de trabalho. Mudar alguma coisa exige muito desprendimento de todos nós, porém devemos fazê-lo sempre, pois os resultados serão surpreendentes.
Os alunos passaram a entrar pela porta principal da escola, ao lado de todos os professores e funcionários. O resultado foi maravilhoso. A amizade e o respeito melhoraram consideravelmente.
Com essa mudança eu podia permanecer, quase que diariamente na porta de entrada, cumprimentando e dando boas vindas a todos. Uma atitude muito simples, mas que trazia bons dividendos. A consideração e o respeito que os alunos demonstravam em retribuição a esse gesto de educação que lhes dedicava, era perceptível a olhos vistos.
Essa aproximação permite uma amizade muito maior entre alunos, funcionários e direção, possibilitando um relacionamento mais verdadeiro. Os frutos colhidos nessa mudança são tão bonitos que todos poderão saborear, juntos.